Inteira

Isabella me procurou para fazer o ensaio do Álvaro depois de 30 dias que ele nasceu, o que por si só já é um alerta vermelho. Via de regra, bebês de 30 dias já não tem mais aquelas características que favorecem o bom andamento do ensaio newborn (o sono já está mais leve, o tônus muscular mais forte e há maiores chances de ocorrerem crises de cólica) e tem fotógrafo que foge dessa situação. Com toda sinceridade, não nego que essa possibilidade me ocorreu, mas ela logo deu lugar ao sentimento de empatia por aquela mãe. Eu não tive coragem de negar àquela família a memória dessa fase tão breve e encantadora, optei por correr o risco. De minha parte, eu faria de tudo para que obtivesse êxito, quanto ao resto, não dependia de mim e não seria motivo para fugir, embora soubesse que eles poderiam sair daqui com uma péssima imagem do meu trabalho caso as condições desfavoráveis levassem ao fracasso do projeto – o que já vi acontecer algumas vezes, especialmente no universo newborn. Encarei. Aí estão as cenas e elas falam por si. Sempre me questiono a respeito das condições necessárias para o êxito nesse ramo da minha fotografia. Já tive ensaios com bebês dentro das “condições ideais” que me deixaram frustradas com o resultado final por vários motivos: bebê com cólica, bebê com fome, papais com dificuldade de confiar verdadeiramente o bebê aos meus cuidados, etc. Ainda não tenho uma opinião formada sobre isso – embora seja inquestionável que priorizar as condições ideais são boa parte da possibilidade de sucesso – mas, uma coisa posso afirmar: independente da situação que se apresente, quem escolhe o quanto me dou sou eu e essa escolha não é uma variável. Meu cliente me tem, inteira.

Troféu

Sarah chegou para mostrar a essa família uma força que eles não sabiam que tem. É o que acontece com as famílias de bebês que vão para o CTI. Assim como eu, essa mamãe teve alta da maternidade e voltou para casa sem seu pacotinho de amor. A dor é devastadora e parece que a gente foi lançada em um vazio que não tem como explicar. Ver nossa cria tendo que lidar com tanta coisa no hospital nos faz experimentar um sentimento de impotência enorme, mas traz também a oportunidade sagrada de experienciar a fé. Chorei junto com a Fabiana, essa mãe que me mostrou uma fé imensurável, tocante até. A pequena veio forte como a mamãe e venceu a batalha, essas fotos foram o troféu. Foi maravilhoso poder fazer esses registros e sentir a confiança que essa família depositou em mim e no meu trabalho. Minha alegria em estar de mãos dadas com eles nesse novo passo foi tremenda e eu agradeço imensamente por compartilharem comigo esse momento de paz com gosto de vitória.

Minha busca

Dediquei meu fim de semana à fotografia newborn. Foram quatro oficinas e várias palestras que enriquecerão muito meu trabalho e já ressignificaram várias coisas no meu modo de pensar esse ofício que eu amo tanto. Fotografar recém-nascido é coisa séria! Antes de mais nada é preciso respeitar os limites daquele serzinho tão frágil que ainda está se adaptando à vida fora do útero. Não podemos tirar da mente que não estamos fotografando para nós, não se trata de uma competição sobre quem faz a pose padrão mais perfeita, essas imagens serão a memória da família e tudo o que eles querem é lembrar de como era seu maior tesouro quando chegou ao mundo. Fazer com que o ensaio seja uma experiência agradável da qual a mãe se lembrará com carinho deve ser item básico na mente dos profissionais. Tudo isso pode parecer óbvio, mas nem sempre é o que ocorre. Esse ensaio é para mim um exemplo de como isso é possível: sem acrobacias, sem sacrificar o bebê, sem mamãe insegura e com resultado encantador. É o que eu sempre busquei e é no que vou mirar, sempre.

Garotinho de sorte

Tinha motivos para dar errado, mas deu muito certo! Eles rodaram mais de 200 km para fazer esse ensaio e chegaram quase duas horas atrasados. Erraram o prédio, chegaram a entrar em outro apartamento. O papai tinha uma cirurgia e teve que ir embora logo que chegaram, a gente não tinha certeza se teria jeito de fazer algumas fotos com ele no final. A primeira vez que nos vimos foi no dia das fotos, mamãe Renata colocou os olhos em já na hora de me entregar seu filhote, e ela o fez de um jeito encantador, com a confiança de quem sentia segurança na profissional escolhida. Detalhe: ela não conhecia ninguém para quem já trabalhei, me achou na internet. Eu estava pronta para administrar uma sessão agitada, com uma mamãe tensa depois da saga para chegar e, consequentemente, um bebê inquieto. Errei demais na minha dedução. Quando abri a porta me deparei com uma família que trazia consigo a paz. De cara já se via um lindo sorriso no rosto de quem sabe lidar com os imprevistos e faz das quedas um passo de dança. Quanta leveza havia naquele casal! Papai Helmer foi tranquilo cumprir seu compromisso e iniciamos o ensaio. No primeiro movimento o pequeno Daniel reclamou e a mamãe, imediatamente, tratou de me mostrar novamente a pessoa admirável que é: “Ele as vezes reclama um pouquinho mas logo para.” Ah, que garotinho de sorte! Sim mamãe, é isso mesmo! Os bebês choram, é normal, faz parte, e se a gente se mantiver tranquila e calma logo eles relaxam. Foi exatamente o que aconteceu. Tivemos um ensaio maravilhoso, tudo correu de acordo com o que se espera em uma sessão de fotos com recém-nascido porque haviam ali os ingredientes necessários para o sucesso: segurança, confiança, tranquilidade. O resultado foram imagens apaixonantes e fotógrafa apaixonada, torcendo para fotografar muitas outras vezes essa família linda que me encantou à primeira vista.

Serenos

Fim de férias, início de mais um ciclo de trabalho, lá vou eu fazer o primeiro post que, como todos os primeiros posts pós-férias, é especial para mim. Essa família é tudo o que eu busco na vida: simplicidade, leveza, serenidade, harmonia… Mirelinha nasceu em um lar onde reina a paz e ela já demonstrou isso no ensaio newborn. Uma neném tranquila, que dormiu o soninho gostoso que toda fotógrafa espera, que deu mil sorrisinhos para me matar de alegria e que nem no fim do ensaio demonstrou cansaço. Filha da Emiliene e do “Benzin”, não tinha como ser diferente. Eles também sentem as dúvidas, os medos e vivem as incertezas que a chegada de um bebê traz, mas não se perdem nelas. Conseguem manter a energia e a vibração na faixa da serenidade e tudo fica bem. Tão bom ver e fazer parte disso! Tão bom entrar em um lar e sentir confiança, de verdade. Sim, é possível vivenciar esse momento com a alma leve, mesmo que tenha que dar complemento, mesmo que a grana esteja curta ou seja lá qual for a dificuldade que surja – porque as dificuldades vão surgir, o segredo é a gente saber lidar com elas. O que não dá é para esperar que esse momento seja apenas um mar de rosas sem nenhuma intercorrência. Que possamos aprender a nadar no mar que se apresentar diante de nós de forma serena, assim como esses queridos que agora apresento a vocês.