Inteira

Isabella me procurou para fazer o ensaio do Álvaro depois de 30 dias que ele nasceu, o que por si só já é um alerta vermelho. Via de regra, bebês de 30 dias já não tem mais aquelas características que favorecem o bom andamento do ensaio newborn (o sono já está mais leve, o tônus muscular mais forte e há maiores chances de ocorrerem crises de cólica) e tem fotógrafo que foge dessa situação. Com toda sinceridade, não nego que essa possibilidade me ocorreu, mas ela logo deu lugar ao sentimento de empatia por aquela mãe. Eu não tive coragem de negar àquela família a memória dessa fase tão breve e encantadora, optei por correr o risco. De minha parte, eu faria de tudo para que obtivesse êxito, quanto ao resto, não dependia de mim e não seria motivo para fugir, embora soubesse que eles poderiam sair daqui com uma péssima imagem do meu trabalho caso as condições desfavoráveis levassem ao fracasso do projeto – o que já vi acontecer algumas vezes, especialmente no universo newborn. Encarei. Aí estão as cenas e elas falam por si. Sempre me questiono a respeito das condições necessárias para o êxito nesse ramo da minha fotografia. Já tive ensaios com bebês dentro das “condições ideais” que me deixaram frustradas com o resultado final por vários motivos: bebê com cólica, bebê com fome, papais com dificuldade de confiar verdadeiramente o bebê aos meus cuidados, etc. Ainda não tenho uma opinião formada sobre isso – embora seja inquestionável que priorizar as condições ideais são boa parte da possibilidade de sucesso – mas, uma coisa posso afirmar: independente da situação que se apresente, quem escolhe o quanto me dou sou eu e essa escolha não é uma variável. Meu cliente me tem, inteira.

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